JRJordao Escreveu: ↑24 jun 2026 09:36
Pirata Escreveu: ↑24 jun 2026 09:23
Um dos argumentos muito usado é de que se vier uma grande crise financeira , um replay de 2008 ou algo semelhante, uma grande falta de liquidez em grandes bancos que depois contagia outros em efeito dominó, etc isso faz , nesta perspectiva, com que opções como esta do Advanzia Bank, sejam arriscadas/ pouco seguras pq se estoura o dinheiro , PUF , foi se e dps , sendo o LUX um paraíso fiscal etc , é tudo manhoso, aceder ao FGD deve ser caríssimo e dificil etc ...
Bom, esse privatbank , saiu de PT? Estourou ?
Isso dito por pessoas que têm imenso estudo feito sobre o funcionamento dos FGD, certamente
Bom, agora vieram à carga outra vez, com avisos do perigo do Advanzia e bancos como este, que prometem tudo e altos juros e de como em termos mais gerais é esta ganância pelo juro mais alto que leva as pessoas a situações como as da Dona Branca:
"O nascimento da “Banqueira do Povo”
Durante décadas, o negócio funcionou sem grande notoriedade pública. Contudo, a partir do final dos anos 1970 e especialmente no início dos anos 1980, a dimensão da operação cresceu exponencialmente.
Portugal atravessava então uma grave crise económica. A inflação era elevada, os salários perdiam valor, o desemprego aumentava e multiplicavam-se os receios quanto ao futuro. Muitos portugueses procuravam formas alternativas de rentabilizar as suas poupanças.
Foi neste contexto que os juros oferecidos por Dona Branca se tornaram irresistíveis. Enquanto os bancos remuneravam os depósitos a taxas modestas, ela prometia retornos que chegaram a atingir níveis extraordinários, que segundo alguns relatos da época chegaram aos 120% ao ano.
Milhares de pessoas entregaram-lhe dinheiro. Alguns clientes eram operários, reformados e pequenos comerciantes. Outros pertenciam a meios mais influentes. Entre os depositantes encontravam-se empresários, profissionais liberais, figuras do espetáculo e até personalidades ligadas à política e à magistratura.
A confiança era tanta que muitos clientes encaravam os investimentos junto de Dona Branca como mais seguros do que os realizados na banca formal.
O país descobre o fenómeno
O anonimato terminou quando a comunicação social começou a interessar-se pelo caso. Uma reportagem publicada pelo "Tal & Qual", em fevereiro de 1984, apresentou Maria Branca dos Santos como uma espécie de banco paralelo de enorme dimensão. A publicidade revelou-se fatal. O que durante anos vivera da discrição passou a estar sujeito ao escrutínio público. Seguiram-se novas reportagens e testemunhos, nomeadamente no "Diário de Notícias". À medida que os jornais descreviam montanhas de dinheiro e movimentações financeiras impressionantes, cresciam simultaneamente a curiosidade dos portugueses e o receio dos investidores.
As autoridades começaram a acompanhar mais atentamente a situação.
A intervenção do Governo e o colapso.
Em 1984, enquanto a Polícia Judiciária aprofundava as investigações, o Governo liderado por Mário Soares procurava uma solução para um problema financeiro, político e social de enorme dimensão.
Segundo vários testemunhos posteriores, um momento decisivo ocorreu quando o ministro das Finanças, Ernâni Lopes, alertou publicamente para os riscos associados à atividade desenvolvida por Dona Branca.
A declaração teve um efeito devastador. Muitos depositantes correram a levantar o dinheiro. O sistema, que dependia da entrada permanente de novos capitais para manter os pagamentos prometidos, entrou rapidamente em colapso.
Meses mais tarde seriam encontrados documentos demonstrando movimentações financeiras gigantescas. Apenas em quatro dias de junho de 1984 teriam sido emitidos recibos correspondentes a depósitos superiores a um milhão de contos.
A corrida aos levantamentos tornou-se imparável.
Prisão, julgamentos e condenação
A 8 de outubro de 1984, Dona Branca foi detida.
O processo revelou-se um dos mais mediáticos da história judicial portuguesa. Inicialmente envolveu 69 arguidos e originou anos de investigação, recursos e polémicas.
Em 1986 obteve liberdade mediante caução, mas a situação judicial estava longe de concluída. O julgamento teve início em fevereiro de 1988 e prolongou-se até fevereiro de 1990, data da leitura da sentença: em 1989 foi condenada por emissão de cheques sem cobertura e, no ano seguinte, o Tribunal da Boa Hora aplicou-lhe uma pena de dez anos de prisão por burla agravada e emissão continuada de cheques sem provisão.
Ao mesmo tempo, dezenas de outros envolvidos no processo foram condenados ou absolvidos.
Dona Branca insistiu até ao fim que nunca pretendera enganar os depositantes e que a intervenção das autoridades contribuíra decisivamente para a impossibilidade de continuar a cumprir os compromissos assumidos.
Os últimos anos
Quando a sentença final foi conhecida, a mulher que durante algum tempo movimentara milhões encontrava-se numa situação muito diferente daquela que alimentara a sua fama.
A fortuna desaparecera. A saúde deteriorava-se. Muitos antigos admiradores tinham desaparecido.
Morreu a 3 de abril de 1992, vítima de trombose, aos oitenta anos de idade. Os últimos tempos foram marcados pela solidão e por um contraste impressionante com os anos em que multidões a procuravam diariamente.
O funeral decorreu quase sem assistência. A mulher que mobilizara milhares de investidores e dominara manchetes durante anos foi acompanhada por um reduzido número de pessoas.
Um símbolo de uma época.
A história de Dona Branca permanece inseparável do Portugal dos anos 1980. O seu percurso refletiu as fragilidades económicas do país, a falta de confiança em muitas instituições e a esperança de ascensão financeira de milhares de portugueses. Para uns, foi uma burlista responsável por enormes prejuízos. Para outros, uma mulher oriunda dos meios populares que compreendeu melhor do que ninguém as necessidades e os sonhos dos seus clientes.
Quase sempre apresentada como a «Banqueira do Povo», Dona Branca continua a ser uma das personagens mais fascinantes da história contemporânea portuguesa. Décadas depois da sua morte, foi o seu neto, Germinal "Gi" Cordeiro, filho de Ernesto Cordeiro, quem colaborou com o jornalista Pedro Prostes da Fonseca na biografia "Dona Branca — A Verdadeira História da Banqueira do Povo" (2017), reunindo testemunhos de familiares e antigos colaboradores que ajudaram a reconstituir a sua trajetória. A sua trajetória cruza pobreza, empreendedorismo, confiança, ambição, devoção religiosa, drama judicial e queda pública, reunindo todos os ingredientes de uma história que ainda hoje continua a despertar curiosidade e debate."